terça-feira, 5 de abril de 2011

O Priorado do Condestável

Reinava o silêncio na biblioteca da mansão, a reunião da noite tinha um único ponto na agenda: afastar a influência de não Irmãos e traidores do Governo de Portugal. O Priorado do Condestável não tinha existência legal, poucos sabiam da sua existência, a conjuntura impunha medidas. Banqueiros, juristas, escritores e militares integravam o grupo na Quinta da Capela. A coberto dum alegado encontro de rotários, os Irmãos iam discutir formas de agir, a queda do governo antevia mudanças e era preciso assegurar a influência de Irmãos no novo que se seguisse.

Fundado clandestinamente em 1974, depois dos eventos que conduziram à mudança do regime, o Priorado zelava pela restauração dos valores ligados ao desígnio místico de Portugal,farol da civilização, na tríplice aliança entre Exército, Igreja e Finança, os pilares da Pátria, sendo os membros sujeitos a rigorosas regras de iniciação. Secretamente, ministros, bispos, generais e empresários eram membros, a reunião dessa noite era de emergência. Entre outros, o general Alves Salomão, monsenhor Taveira Braga, do Cabido de Viseu, o banqueiro Ricardo Sendim e o escritor e ideólogo Tolentino Peixoto, autor de livros zurzindo nos plutocratas e vendilhões que dominavam o país. Para segurança do grupo, usavam túnica branca e azul, as armas do beato Nuno bordadas no peito e cara tapada por um capuz, um anel de lápis-lazuli identificava a pertença ao priorado.O Grão Mestre, encerradas as portas e com todos sentados na mesa oval abriu a reunião:

-Irmãos, louvado seja D. Nuno, nosso Mestre e Patrono. Cabe-nos como Condestáveis da Pátria salvá-la do ateísmo e materialismo, que tudo subjuga ao relativismo da ciência e do imediatismo. Nunca como agora os nossos valores se demonstraram tão urgentes e a Comunidade Pátria tão falha deles. O momento é de acção! Há que ter mão nos jacobinos e franco-maçons que corroem a sociedade, e destruir o Governo Secreto do Mundo que ora se apoderou da Nação Do Templo. A isso nos obriga a situação de emergência que a Pátria vive, cercada pela ameaça do judaísmo infiltrado na dita União Europeia e que governa as instituições financeiras mundiais. Este ataque à Pátria é obra sionista e visa vingar a expulsão dos marranos há quinhentos anos, não haja dúvidas!

Tolentino, lunático ideólogo e estudioso de Nietsche corroborava:

-Veja-se a imprensa, a excitar e inflamar as paixões entre o povo, lobos entre carneiros, empurrando para as mãos dos títeres. Há que controlar a imprensa, será boa ferramenta para oferecer tantas opiniões diferentes que eles perderão a visão global e se perderão no labirinto das informações. Devemos dominar a Comunicação e mantê-la na nossa dependência. Apesar das recentes reconquistas no audiovisual muito há a fazer ainda, Irmãos!

Também monsenhor Braga concordava, debaixo do capuz, a sua voz e as homilias inflamadas na Sé de Viseu eram conhecidas:

-O plano dos ateus é dominar as pessoas pelos seus vícios, distrair a atenção das massas pelas diversões populares, jogos, competições desportivas, divertir o povo para impedi-lo de pensar. Está tudo estudado: destruir a estabilidade financeira: multiplicar as crises económicas e preparar a bancarrota universal; parar as engrenagens da indústria; fazer ir por água abaixo todos os valores; concentrar o dinheiro do mundo em certas mãos; deixar capitais enormes em absoluta estagnação e agiotagem; e, no momento certo, suspender todos os créditos e provocar o pânico entre as Nações. O plano está em marcha, não há que hesitar,é tocar a rebate nas aldeias, em busca da reserva moral da Nação, unir Espada e Cruz, e como D. Nuno buscar a redentora Aljubarrota nesta Pátria moribunda! O Grão-Mestre, austero, concordava, apontando missões:

-É necessário compreender que a multidão é cega, insensata, sem raciocínio, indo para a direita ou para a esquerda por mera leviandade. Só a Espada desembainhada pode levar a um novo desígnio. É preciso incendiar as ruas, os estádios de futebol, os jornais, a plebe. E depois apresentar o novo Salvador, o Irmão que na hora certa todos em conjunto alcandoraremos ao Trono do Rei Afonso! E enigmático, apontou um Irmão até ali silencioso, sentado ao topo da mesa.

-Irmão, pela Espada entrarás no redil dos ímpios e removerás o tumor que dilacera a Nação - o dedo indicado, profético, apontava o Salvador escolhido.

Levantando-se, sem se descobrir, o misterioso participante aproximou-se da janela, lá fora a serra silenciosa e escura repousava letárgica em tempo conturbado para os Homens. Enigmático, em voz baixa e pausada, deixou umas breves palavras à assembleia de embuçados:

-A violência deve ser o princípio; a astúcia e a hipocrisia, a regra para os governos que não queiram entregar a coroa aos agentes da nova força. Por isso não nos devemos deter diante da corrupção, da velhacaria e da traição. Aqueles que transformaram os Estados em arenas onde reinam os distúrbios dentro de pouco tempo verão surgir desordens e bancarrotas por toda a parte. Recordai o irmão Nostradamus e o seu versículo III. 28 :"As representações do ouro e da prata vítimas da inflação, depois do vôo da doce vida, serão atiradas ao fogo em fúria; esgotados e perturbados pela dívida pública, os papéis e as moedas serão destruídos.". Antes que as eleições de Junho tenham lugar, a Aliança Infiel cairá sobre a Nação, atacando-lhe os proveitos, subjugando-a pelo pecado do juro e roubando-lhe o Futuro. Nessa altura a Espada de D. Nuno cairá sobre os traidores,de dentro e de fora, coarctando o infausto desígnio há séculos profetizado. É a hora!

-E quando será isso, Irmão? -sondou Tolentino, impressionado e ao mesmo tempo excitado.

O Irmão, silencioso, nada disse, numa secretaria da biblioteca do Grão Mestre, uma folha solta de calendário marcava com uma bola a vermelho a data de 28 de Maio, sábado.

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